O flúor em crianças é um tema muito discutido nos últimos anos. Os profissionais de saúde oral continuam a estudar a influência e a necessidade do flúor. Os pais continuam a questionar a sua utilização. 

O flúor é benéfico para os dentes ou o risco de toxicidade sobrepõe-se? Esta é uma questão muito válida e que continua a merecer uma extensa investigação. 

O objetivo deste artigo é esclarecer se devemos optar por pasta de dentes sem flúor para as crianças. Uma coisa quero deixar bem clara relativamente ao flúor. Ele por si só não faz milagres!! Não é uma vacina para os dentes. Não é suficiente para prevenir a cárie dentária. Podemos usar a melhor pasta dos dentes, com a maior quantidade de flúor. Mas se a higiene dentária não for correta. Perdemos. 

Mas afinal o flúor é necessário? Sim, é. O flúor é uma das razões mais importantes, senão a mais importante, para a diminuição do número de cárie dentária. Antes do flúor a cárie dentária afetava 95% da população mundial. 

O primeiro sinal da cárie dentária não é uma cavidade, manifesta-se como uma lesão branca. Nesta fase a cárie dentária pode ser reversível. No entanto, na maioria das vezes, os pacientes recorrem ao meu consultório muito tarde. Na fase da cavidade. Em que me obriga a fazer um tratamento muito mais invasivo. E que pode comprometer a manutenção do dente. 

Por isso eu aconselho pasta fluoretada para as crianças e adultos. Porque o flúor atua antes da cavidade e pode evitar o desenvolvimento da cárie. 

Mas, também muito importante, atua na formação dos dentes. Daí a importância do seu uso nas crianças. 

Esta constatação e o facto de ver muitas crianças, com cáries de grandes dimensões, fez-me querer saber mais sobre o assunto. E pesquisar profundamente sobre este tema. As vantagens e desvantagens do flúor. 

Sobretudo porque cada vez mais os pais perguntam se podem usar a pasta sem flúor. 

Vamos então começar por conhecer os benefícios do flúor.

 

Benefícios do flúor: 

Antes do nascimento do dente, após a formação da coroa dentária, o flúor presente nos fluidos que contactam com a coroa começa a incorporar-se nos tecidos mineralizados e forma a hidroxiapatite. 

Depois da erupção do dente, incorporam-se iões de flúor provenientes da saliva. Se a concentração desses iões na saliva e na placa bacteriana é elevada, formam-se cristais de fluorapatite com maior resistência à desmineralização. 

Um dos mecanismos de ação mais importantes do flúor (mas não o único) está em modular a forma como a superfície do dente absorve e perde minerais. Ter uma pequena quantidade de flúor no dente ajuda a mudar o equilíbrio para que mais minerais sejam ganhos do que perdidos.

Por exemplo, a ingestão de alimentos ácidos, como o vinagre, sumo de laranja ou limão, refrigerantes, entre outros (saiba aqui os 20 piores alimentos para os dentes) promove a desmineralização do esmalte. Na presença destas substâncias, juntamente com os ácidos das bactérias, o pH torna-se crítico (ácido) e existem condições para remover minerais dos dentes. O flúor devolve-os ao esmalte dentário.  

 

3 benefícios do ião flúor: 

  1. Favorece a remineralização (aumenta a resistência do dente)
  2. Inibe a desmineralização 
  3. Inibe a atividade bacteriana    

 

Pasta de dentes com flúor 

Em 2014 foi publicada uma revisão sistemática do The Journal of the American Dental Association (2014) sobre o uso de pasta de dente de flúor para crianças pequenas. Este estudo considerou eficaz e segura o uso de pasta de dentes com flúor em menores de 6 anos.

Investigações sobre a eficácia da adição de flúor à pasta de dentes foram realizadas desde 1945 e cobrem uma ampla gama de ingredientes ativos. Os compostos de flúor e suas combinações que foram testadas para o controlo da decomposição dentária incluem fluoreto de sódio, fluoreto estanoso, monofluorofosfato de sódio e fluoreto de amina.

A quantidade de flúor contida na pasta de dentes com flúor deve ser indicada no tubo da pasta de dentes. Embora esta informação às vezes possa ser difícil de localizar. Pode aparecer após o rótulo “Ingrediente ativo” ou como um componente em “Ingredientes” no tubo da pasta de dentes. 

Anteriormente o teor de fluoretos foi dado como uma percentagem de volume (% p/v) ou peso (% p/p). Atualmente, a maioria dos fabricantes apresenta em partes por milhão de fluoretos (ppm F). 

Na generalidade as pastas dentífricas são classificadas como produtos cosméticos. As directivas da UE que regem os produtos cosméticos proíbem a comercialização de produtos cosméticos (incluindo pastas dentífricas) com níveis de flúor, sem receita médica, superiores a 1500 ppm. Como tal, em Portugal, a maioria das pastas dentífricas contém 1000 a 1500 ppm F.

 

Riscos associados ao flúor em crianças 

No entanto o flúor tal como qualquer sustância utilizada fora das suas indicações ou doses também pode ser tóxico. 

Um tubo de pasta de dentes contém quantidade de flúor suficiente para prejudicar uma criança de 10 kg. Quando introduzido no nosso corpo, age como um inibidor enzimático que faz com que as células parem de funcionar.

 

Dose recomendada de flúor em crianças: 

A dose ideal de flúor é de 0,05 mg por quilo por dia. Por exemplo, uma criança média de 2 anos com 15 kg, escova os dentes duas vezes ao dia com a quantidade de um grão de arroz de pasta de dentes e se engolir toda a pasta de dentes irá ingerir 0,2 mg de flúor, resultando numa dose de 0,013 mg / kg. Se essa mesma criança escovar duas vezes por dia com uma quantidade de pasta de dentes do tamanho de uma ervilha e engolir toda a pasta de dentes, irá ingerir 0,5 mg de flúor, resultando numa dose de 0,033 mg / kg. 

No entanto não nos podemos esquecer que as crianças estão expostas a outras fontes de flúor. Como por exemplo através do consumo de alimentos e bebidas. Estas fontes potenciais adicionais de flúor e o risco de desenvolver fluorose no momento da formação do dente, levaram a American Dental Association a estabelecer limite na quantidade de pasta de dentes com flúor. 

Como tal a recomendação para crianças desde a erupção do primeiro dente até a idade de 3 anos é o tamanho de grão de arroz (esfregaço) . 

Para as crianças entre os 3 e os 6 anos de idade está indicado o tamanho de uma ervilha. Podemos também utilizar a unha do quinto dedo da mão como referência para a quantidade de pasta de dentes. 

Assim, os riscos de utilização de fluoretos são consequência da ingestão excessiva seja por um curto ou longo período.

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Consequências da toma excessiva de flúor: 

  • Descoloração permanente dos dentes (fluorose dentária)
  • Doenças do estômago
  • Toxicidade aguda
  • Erupções cutâneas (dermatite perioral) 
  • Comprometimento do metabolismo da glicose

 

Todos estes riscos foram aumentados, desnecessariamente, pelas práticas de marketing dos fabricantes de pasta de dentes, que usam embalagens de desenhos animados e sabores doces para diferenciar a pasta de dentes com flúor para crianças e para adultos.

 

A fluorose dentária é um defeito no esmalte causado pela ingestão excessiva de flúor durante os anos de formação de dentes (de 0 a 8 anos). Na sua manifestação leve, a fluorose apresenta-se como manchas e raias brancas nos dentes. A forma moderada e severa de fluorose apresenta manchas intensas castanhas e pretas, com cavidade e desintegração do esmalte. Crianças que ingerem muita quantidade de pasta de dente (de forma acidental ou propositada), podem desenvolver estas manchas. 

 

Pasta de dentes sem flúor em crianças

Em resposta à preocupação com a fluorose do esmalte, alguns fabricantes comercializam pasta de dentes “infantil” ou “pediátrica”, sem ou com baixo teor de flúor, contendo menos de 600 ppm de flúor. A eficácia deste tipo de pasta de dentes na prevenção da cárie não foi estabelecida. O que foi demonstrado, por uma série de revisões sistemáticas, é que as pastas dentífricas com uma baixa concentração de fluoreto, por exemplo 250 ppmF, são menos eficazes do que as pastas de dentes com o valor padrão entre 1000 a 1500 ppm F, na prevenção de cáries em dentes permanentes.

Um estudo publicado em Julho de 2016 refere que 28,9% dos componentes encontrados nas pastas dentífricas foram considerados desnecessários para melhorar a saúde oral das crianças. Além disso 69,2% apresentaram risco de contaminação associados ao consumo crónico. 

A pasta de dentes sem flúor presente no mercado tem também estes ingredientes desnecessários. Por isso, se remover o flúor da pasta de dentes estará a perder benefícios de escovar os dentes com pasta. Além disso, o seu filho estará a ingerir, da mesma forma, as substâncias indesejáveis.  

Infelizmente não existe uma resposta 100% comprovada na literatura para este tema.

É óbvio, existem inúmeras variáveis a considerar e conhecimentos importantes na altura de escolher pasta de dentes com flúor. E por isso deve sempre procurar aconselhamento profissional.

A pasta de dentes fluoretada tem a capacidade de neutralizar o pH ácido da cavidade oral e promover a mineralização. No entanto é fundamental escovar os dentes para remover mecanicamente a placa bacteriana. 

Mas quando vemos toda a explicação e entendemos o assunto, percebemos que o flúor é demasiado importante para ser eliminado da nossa higiene oral diária. 

Gostou deste artigo? Ficou esclarecida? Qual a quantidade de flúor na pasta de dentes aí de casa?